Bruno Serra, gestor da família de fundos Janeiro da Itaú Asset e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, projeta dois cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual na Selic, em agosto e setembro. A posição o coloca em rota de colisão com o consenso do mercado, que precifica manutenção ou, no máximo, um único corte em todo o segundo semestre. A tese se ancora em uma projeção de IPCA de 4,6% para 2026, quase um ponto percentual abaixo da mediana de 5,3% do Boletim Focus.
A divergência é relevante para investidores em renda fixa, especialmente os posicionados em NTN-B 2035 e NTN-B 2045. Nesses vértices, dois cortes de 0,25 pp acima do esperado pelo consenso poderiam provocar fechamento de taxas na faixa de 20 a 40 pontos-base, com impacto expressivo de valorização nos preços dos títulos — um dado concreto para o gestor de carteira dimensionar o risco direcional.
O argumento central de Serra é que a diferença entre sua projeção de inflação e a do consenso está concentrada em itens voláteis, como alimentos in natura e bens industriais, e não na inflação de serviços, que já mostra sinais de desaceleração. Após a reversão da alta temporária do petróleo que se seguiu à escalada do conflito entre EUA e Irã, o gestor atualizou seu cenário. “A gente fez uma atualização relevante na semana passada depois que ficou clara a reversão do choque do petróleo. Quando olho para o meu cenário de inflação, vejo espaço para voltar a cortar juros”, afirmou.
O câmbio também entra na equação. Serra projeta o dólar próximo de R$ 5,10 e avalia que 14% é o teto para a Selic em 2026, sem descartar um ciclo mais intenso de cortes caso a atividade econômica desacelere com força no fim do ano.
Do outro lado do debate está Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, que projeta inflação de 5,3% neste ano e Selic estacionada em 14,25% até dezembro. “Hoje a nossa trajetória de juros, dado o nosso cenário de inflação de 5,3%, é um juro constante em 14,25%. Não esperamos mais cortes neste ano, a não ser que haja surpresa consistente nos dados de inflação”, declarou. O economista aponta o impulso fiscal como o principal fator de resistência: “A grande desconfiança que todos nós temos é um impulso fiscal positivo” que sustenta a demanda mesmo diante de juros historicamente elevados.
A XP ocupa posição intermediária: projeta a Selic em 14% ao fim de 2026, com um corte de 0,25 pp em agosto seguido de estabilidade até o início de 2027 — leitura alinhada à ata do Copom, que mencionou a possibilidade de “pausas e retomadas” na calibração monetária. O Bank of America projeta a Selic estagnada em 14,25% até 2027, enquanto o Rabobank vê apenas um corte adicional, para 14%, seguido de pausa prolongada, também citando o impulso fiscal como pressão sobre os preços.
Embora o consenso entre as grandes casas ainda seja de cautela, as opções de Copom negociadas na B3 sinalizam mudança relevante na percepção dos investidores. O mercado precifica cerca de 75,5% de probabilidade de corte de 0,25 pp em agosto, ante 21% para manutenção. No início de junho, o quadro era oposto: a manutenção dominava, com probabilidade em torno de 75%, e o corte aparecia perto de 15%. A inversão começou na segunda quinzena do mês e se consolidou na leitura de 3 de julho.
O pano de fundo é o ciclo iniciado pelo Copom em 2026, após o fim das altas em 2025. O comitê reduziu a Selic em três reuniões consecutivas, chegando a 14,25% ao ano em 17 de junho, mas a linguagem da ata manteve aberta a trajetória futura. Com juros reais ainda historicamente elevados, boa parte das casas tem recomendado travar posições em títulos IPCA+ de prazo longo isentos de IR como estratégia defensiva para julho.
O principal catalisador será a própria reunião do Copom, prevista para agosto de 2026: um corte valida a tese de Serra e pode antecipar reprecificação nos contratos de DI futuro; a manutenção reforça o consenso de BTG Pactual, Bank of America e Rabobank. Antes disso, a mediana do Boletim Focus funcionará como termômetro semanal da adesão à projeção de 4,6% da Itaú Janeiro. Em 28 de julho, a reunião do Conselho Nacional de Previdência Social sobre proposta de corte nos juros do consignado do INSS também entra no radar, já que a decisão afetaria diretamente o argumento do impulso fiscal que divide Serra e Mansueto.
Fonte: Investing


