A Nortec, fabricante brasileira de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), usados na produção de medicamentos, está apostando no desenvolvimento e fabricação sob demanda e no avanço de exportação para os Estados Unidos para crescer nos próximos anos. A empresa planeja se tornar alternativa para farmacêuticas que hoje buscam países como Índia e China, potências no segmento, para desenvolver projetos de inovação.
A fabricante já fornece para laboratórios nacionais, como EMS, Eurofarma e Hypera, e internacionais, como a francesa Opella (ex-Sanofi), e tem como meta quase triplicar o faturamento até 2030 e ficar próximo dos R$ 700 milhões.
O objetivo se ampara em investimentos como o feito na planta de produção de insumos de alta potência da empresa, em Duque de Caxias (RJ), unidade que centraliza parte da operação de desenvolvimento e produção de IFA sob demanda e que já recebeu R$ 90 milhões em aportes.
Considerando a unidade, a Nortec tem seis plantas no complexo industrial de Duque de Caxias (RJ). As outras cinco são multiuso destinadas à fabricação do portfólio regular da fabricante, de cerca de 50 IFAs, que tem capacidade de produção total de até 400 toneladas de insumos por ano.
“Ser uma solução local é uma forma até da farmacêutica ter um melhor controle sobre a sua propriedade intelectual do que mandar esse produto ser feito lá na Índia, na China, ou onde for”, disse o presidente da Nortec, Marcelo Mansur.
O mercado global de IFAs foi estimado em US$ 245 bilhões em 2025, com projeção de crescimento para US$ 261 bilhões neste ano, segundo a consultoria Fortune Business Insights. Em 2024, o Brasil movimentou US$ 9,2 bilhões no mercado, cerca de 3,6% do total global naquele período, calcula a Grand View.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina), dos insumos que a indústria farmacêutica usa na produção de medicamentos em território nacional apenas entre 5% e 10% são fabricados no país, dado que ilustra a dependência do mercado externo no segmento.
“No passado, a farmacêutica do Brasil era abastecida em torno de 50% por indústria nacional”, disse o executivo da Nortec. Segundo Mansur, no modelo sob demanda, a produção é feita a partir do pedido das farmacêuticas, em projetos customizados sob contratos de exclusividade. “Diferente do passado, onde desenvolvíamos um produto e ele era lançado para o mercado, para quem quisesse comprar, hoje começamos desde a bancada, ali em gramas, até a tonelada”, afirmou.
A Nortec dedica-se exclusivamente à fabricação de IFAs para farmacêuticas, que usam esses insumos para produzir medicamentos, dos genéricos aos de marca e biossimilares, em segmentos como anestésicos, antidepressivos, antirretrovirais, que inibem a replicação do HIV, e cardiovasculares.
No ano passado, a empresa faturou R$ 250 milhões com o fornecimento de IFAs para o mercado privado, que respondeu por 70% das receitas, e para o público, com 20%. Os 10% restantes trataram-se de exportações para países do Mercosul, como Argentina e Colômbia, e da Europa. A projeção para este ano é de receita de R$ 300 milhões, alta de 20%, e para 2030, de até R$ 700 milhões, patamar 2,8 vezes maior do que o registrado em 2025.
O executivo disse que a fabricante quer que a produção sob demanda passe a responder por um terço do faturamento projetado para 2030. Em 2025, representou apenas 5%. O atual portfólio de IFAs regulares e de parcerias de desenvolvimento produtivo (PDPs) para o fornecimento ao Sistema Único de Saúde (SUS) responderia pelas outras duas fatias, também de um terço cada.
Para o mercado privado, o portfólio inclui, por exemplo, o IFA do Dorflex, da Opella, além de insumos para anestésicos, antidepressivos e antigripais de diferentes marcas, e para o público, IFAs de antirretrovirais dos programas de AIDs do Sistema Único de Saúde (SUS).
Em fevereiro, a fabricante assinou duas novas PDPs para o dasatinibe, usado no tratamento de leucemia, em parceria com a Fundação para o Remédio Popular (Furp) e a Biocon Pharma, com potencial de R$ 10 bilhões em compras governamentais em uma década. “Nos próximos cinco anos vamos colocar novos produtos no mercado através desse programa [de PDPs] que para nós é bem importante também”, afirmou o executivo.
A frente que a Nortec quer abrir em território americano sustenta a projeção de até R$ 150 milhões em faturamento de exportação para aquele país até 2030. O processo de certificação para exportação teve início em 2018 e a fabricante recebeu o documento em 2023.
Mansur disse que espera lançar neste ano o primeiro produto comercial para os EUA, com a prilocaína, usada na produção de anestésicos locais. Também tem pelo menos outros três em desenvolvimento. “Esperamos chegar na casa dos R$ 100 milhões a 150 milhões em exportação para os Estados Unidos até 2030”, completou o executivo.
Fonte: Valor Econômico