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A expectativa por cortes de juros no exterior, acompanhada de certa calmaria no cenário econômico doméstico, levou o Ibovespa aos 134 mil pontos no fim de 2023 e fez com que analistas vislumbrassem ganhos adicionais para o índice em 2024. Ao longo do ano, no entanto, esses e outros possíveis gatilhos de alta da bolsa foram colocados à prova, fazendo com que o mercado passasse a enxergar um espaço limitado para ganhos.
Naquela altura, a média das 22 projeções colhidas pelo Valor colocava o referencial aos 144,2 mil pontos no fim de 2024, uma alta de 7,46% em relação aos 134.185 pontos registrados pelo índice no último pregão do ano. Mas, até aqui, o índice acumula queda de 7,36% no ano, aos 124.306 pontos, e executivos mostram maior dificuldade para apontar gatilhos positivos para a bolsa no curto prazo.
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“O fator macroeconômico global foi o principal motivo para vermos o mercado mais otimista no final de 2023, e para o ajuste nas expectativas, principalmente ao longo do primeiro trimestre”, afirma Jennie Li, estrategista de ações da XP. E uma das principais consequências da reprecificação dos juros americanos é a saída do fluxo estrangeiro, complementa.
Os não residentes, que no último bimestre de 2023 fizeram aportes volumosos na bolsa brasileira com a perspectiva de relaxamento monetário tanto nos EUA quanto no Brasil, passaram a registrar saídas líquidas neste ano.
“Em 2024, os emergentes em geral não tiveram fluxo”, diz Li. “Ficamos sem comprador marginal entrando, e isso ajudou a sustentar a queda da bolsa este ano.” Conforme os dados mais recentes da B3, as vendas de ações listadas na bolsa brasileira pelos estrangeiros superaram as compras em R$ 32,39 bilhões no acumulado deste ano.
Não foi só nos EUA que os agentes passaram a esperar uma política monetária mais apertada: o mesmo ocorreu no Brasil. No fim de 2023, o mercado estimava que a Selic terminaria este ano em 9%, segundo a mediana das expectativas do boletim Focus. Agora, a mediana é de 10%.
Embora as leituras recentes de inflação não tenham apresentado grandes surpresas negativas, há cautela do mercado quanto à postura do Banco Central (BC) a partir do ano que vem. A possibilidade de um BC mais leniente com a inflação tem mexido nas expectativas para o IPCA: enquanto, no início do ano, o Focus mostrava uma projeção mediana de 3,50% para 2025, agora está em 3,74%.
“O BC não consegue indicar que vai continuar cortando os juros se as estimativas para a inflação de 2025 continuarem aumentando”, afirma Daniel Barros, chefe de mercados globais na América Latina do UBS BB. O juro alto mantém a renda fixa local mais atrativa.
A manutenção das taxas em níveis elevados por mais tempo também pressiona as empresas brasileiras de maneira mais direta, principalmente aquelas com maiores níveis de alavancagem, já que as despesas financeiras permanecerão mais altas e os lucros podem ser menores do que os projetados.
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“Além do impacto nos balanços, esse cenário pode fazer com que as empresas tomem menos riscos e busquem formas de não carregar tanta dívida”, diz Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, que revisou a projeção para o Ibovespa ao fim de 2024 de 145 mil pontos para 135 mil pontos.
Ainda no âmbito doméstico, outro fator que mexeu com as expectativas para os juros no Brasil foi a condução da política fiscal. As mudanças nas estimativas para o resultado deste ano e nas metas para os próximos elevaram os prêmios de risco de ativos locais, afetando as projeções para a Selic e a bolsa brasileira.
“O Brasil acrescentou dificuldades internas à questão do Fed”, diz Barros, do UBS BB. “Tivemos a questão do fiscal, e também houve discussões sobre o CEO da Vale e os dividendos da Petrobras”, aponta ele. A interferência nas estatais é mais um fator que mudou expressivamente desde o começo do ano, com efeitos sobre o desempenho da bolsa.
A ação preferencial da Petrobras, por exemplo, subiu mais de 90% na B3 no ano passado e ajudou a impulsionar o Ibovespa. Este ano, a incerteza com os dividendos extraordinários e a demissão de Jean Paul Prates causaram perdas para os papéis, embora eles ainda acumulem alta de cerca de 5% em 2024. A performance do petróleo, lembra Cruz, da RB, também já não parece ser um impulso à frente, apesar de estar sustentada na resiliência da atividade das economias desenvolvidas.
“Já a desvalorização do câmbio, que ocorreu muito mais pela força do dólar do que pela fraqueza do real, pode ter algum efeito positivo para as exportadoras de commodities. Mas, de forma mais geral, a piora da divisa local pressionou as expectativas de inflação e não ajuda na imagem da bolsa e do país aos olhos do investidor estrangeiro”, diz. As projeções do Focus para o câmbio também exibem deterioração: de R$ 5 para R$ 5,04.
Ainda que as incertezas em relação ao início do ciclo de corte de juros nos Estados Unidos e a deterioração do cenário local resultem em um prêmio de risco maior e uma performance mais fraca do Ibovespa nos primeiros meses do ano, analistas ainda veem chance de alguns catalisadores positivos para a bolsa à frente.
Do exterior, algum impulso pode vir da China, aponta Cruz, da RB. “A última rodada de estímulos foi a mais forte até então e tem feito a diferença, principalmente por conta do foco no setor de construção civil. Outro ponto de atenção é o aumento de exportação por parte dos frigoríficos brasileiros para lá. Já o nível ainda elevado de exportação de aço pelo país é negativo para as siderúrgicas”, diz.
Li, da XP, acrescenta que o mercado de capitais chinês voltou a performar bem, o que beneficia os países emergentes como um todo. “Não acho que o governo vai colocar muito estímulo, mas ainda tem espaço. Eles não têm problemas de inflação como Brasil e EUA, mas têm estimulado a economia de forma mais pontual, em setores que demonstram mais fraqueza, como o imobiliário. Vemos recuperação em grande parte baseada nas expectativas de mais estímulos.”
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Já o grande destaque positivo do ano em termos locais é a atividade resiliente, avalia Aline Cardoso, chefe de estratégia de renda variável do Santander. “Está provocando revisões para cima do PIB e os balanços corporativos do primeiro trimestre mostram que as empresas estão capturando isso”, diz, notando que o banco projeta que a economia local irá crescer 2% em 2024 e em 2025. As expectativas do boletim Focus para o crescimento do PIB neste ano, por sua vez, passaram de 1,52% para 2,05%.
Assim, Cardoso tem viés mais otimista em relação ao crescimento nos lucros das empresas à frente. Ela nota que, para além do impacto de despesa financeira, muitas empresas domésticas sofreram com questões tributárias, mas parece ter havido um ponto de inflexão recentemente. Afirma ainda que as projeções de alguns setores, como os de agro e de papel e celulose, estão sendo revisadas para cima.
“As empresas continuam melhorando, mas o ciclo de afrouxamento que viria este ano foi empurrado para o ano que vem. E, como o Brasil não tem um grande tema secular agora, como ‘nearshoring’ ou inteligência artificial, ficamos reféns do Federal Reserve [o banco central dos EUA]”, diz a executiva, que revisou sua projeção para o Ibovespa ao fim do ano de 160 mil pontos para 145 mil pontos.
“Mas a posição técnica mais leve ajuda. Estrangeiros saíram, locais estão com posição de caixa maior. Como a correlação da bolsa com os juros americanos está alta, podemos reagir como no fim do ano passado se houver uma sequência de dados positivos e o cenário ficar mais claro. O mercado não vai esperar os cortes de juros começarem de fato”, afirma Cardoso.
Barros, do UBS BB, concorda que o mercado está “leve”. “Muita gente diz que ainda tem mais saída de recursos para ocorrer da indústria de equities, tem resgate… Mas diminuiu bem. Os investidores ainda não olham para a renda variável como um bom veículo para alocar risco no curto prazo. Mas isso muda rapidamente com uma ou duas notícias positivas.”
Fonte: Valor Econômico


