É cedo para dizer o que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central vai fazer com os juros na sua reunião de junho, mas os pronunciamentos do diretor de política monetária da instituição, Gabriel Galípolo, indicam que ele deve deixar de ser um dissidente e votar com a maioria.
Ele explicou na semana passada que foi voto minoritário para uma baixa de 0,5 ponto percentual na Selic na reunião de maio, junto com outros três membros indicados pelo governo Lula, porque procurava estabelecer uma reputação de quem segue o que sinaliza em pronunciamentos públicos.
Então, para saber o que Galípolo deve fazer daqui por diante, é preciso prestar atenção no que ele tem dito ultimamente e no que vai dizer até a reunião de junho. Suas falas, pelo menos até agora, foram todas para apoiar a linha da ala majoritária que votou por um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, para os atuais 10,5% ao ano.
No Summit Valor Econômico Brazil-USA, realizado na semana passada, ele disse que “estaria hoje muito confortável em apresentar todos os argumentos de o porquê votar em 0,25”. Segundo ele, o ponto mais importante da ala majoritária era sinalizar “um tom adicional de preocupação para o mercado para além daquilo tudo que está registrado em consenso entre os membros do Copom”.
Quando Galípolo disse que está confortável com “todos os argumentos” da ala majoritária do Copom, isso naturalmente deve incluir o que está escrito na ata da reunião de maio do comitê. “Muito mais importante do que o eventual custo reputacional de não seguir um guidance, mesmo que condicional, é o risco de perda de credibilidade sobre o compromisso com o combate à inflação e com a ancoragem das expectativas”, diz o documento.
O pronunciamento de Galípolo ocorreu uma semana depois da reunião do Copom, quando as expectativas já estavam, de fato, aprofundando o processo de desancoragem, com forte influência dos sinais ambíguos ao mercado financeiro provocados pela votação dividida do Copom.
Galípolo falou logo depois de um discurso mais duro do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, no seminário anual da instituição. Esse pronunciamento alterou as apostas do mercado sobre os juros. Um dia antes, as chances de um corte de juros de 0,25 ponto percentual em junho eram de 54%. Um dia depois, já estavam em 41%. As chances de manutenção passaram de 42,5% para 57%.
No evento do Valor, as primeiras palavras que Galípolo disse foram para subscrever o que Campos Neto havia falado, sem ter sido diretamente questionado sobre isso. Ou seja, ele agiu para mostrar que havia uma unidade no diagnóstico sobre a inflação e sobre como levá-la para a meta e reancorar as expectativas do mercado financeiro.
Logo depois, para explicar por que votou como votou, destacou que o objetivo foi cumprir a palavra, não só do “forward guidance” (sinalização futura), que indicava corte de 0,5 ponto percentual, mas também que havia indicado pessoalmente. Lembrou que, em evento público, havia pregado “cautela” para lidar com as novidades no cenário externo.
Na sua única fala pública depois da reunião dividida do Copom, Galípolo não fez nenhuma elaboração própria sobre como vê o cenário inflacionário. Apenas reconheceu e apoiou o diagnóstico da ala majoritária, o que parece indicar que não será mais uma vez um voto dissidente, se prevalecerem as condições vistas na semana passada até a reunião de junho.
Naturalmente, Galípolo, ele próprio, não fez um “forward guidance” para se amarrar a uma ou outra decisão. O Copom como um todo achou melhor ter mais liberdade e não sinalizar nada para, em junho, tomar a decisão que considera mais apropriada, pesando os dados econômicos que surgirem até lá.
Como costuma acontecer quando as decisões são dependentes do cenário, de vez em quando o Copom vem a público atualizar a sua visão sobre o estado das coisas, dando pistas para onde caminha a decisão sobre o juro. Para saber como o diretor de política monetária do BC, que é tido como o principal candidato a suceder Campos Neto, vai votar com a maioria em junho, será preciso acompanhar os novos dados econômicos, as eventuais atualizações do cenário pelo Copom e, principalmente, o que diz Galípolo.
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Fonte: Valor Econômico


