O debate eleitoral de ontem abriu uma intenso discussão nos EUA sobre a substituição do presidente Joe Biden como candidato presidencial do Partido Democrata. Biden teve um desempenho terrível e expôs a sua principal fraqueza nesta campanha eleitoral: os seus 81 anos de idade. A maioria dos americanos considera o presidente velho demais para liderar o país mais poderoso do mundo. O debate sem dúvida confirmou essa percepção.
Isso não significa que seu adversário republicano, o ex-presidente Donald Trump, foi bem. Como já se tornou um padrão, Trump disparou uma série de números e afirmações inverídicos, foi superlativo sobre sua pessoa e seu governo (“o melhor da história”), foi catastrofista sobre o governo Biden (“o pior presidente da história”), desconversava e não respondia às perguntas que lhe eram feitas, quase sem intervenção da moderação do debate.
Mas, ainda assim, a comparação foi cruel com Biden. A maioria dos americanos já esperava um desempenho pior de Biden no debate, segundo pesquisas. Mas certamente não tão pior. Também já era amplamente esperado que seria um debate mais sobre a forma, isto é, sobre a imagem que os candidatos conseguiriam projetar de si, do que sobre conteúdo. E foi exatamente nesse ponto que Biden fracassou miseravelmente.
O presidente parecia 30 anos, e não apenas 3, mais velho que seu adversário. Biden nunca foi um grande orador, mas ontem ele gaguejou, estava rouco, tinha dificuldade de dicção, várias vezes se esqueceu o que iria dizer ou perdeu o raciocínio. Enquanto Trump falava, ele olhava para baixo ou para o infinito, parecia perdido, não reagia ao que Trump dizia, por mais absurdo que fosse.
Poucas vezes um debate presidencial de fato influenciou uma eleição. O caso mais notório é o do debate entre o democrata John Kennedy e o republicano Richard Nixon, em 1960. A linguagem corporal fez Nixon perder aquele debate e possivelmente afetou o resultado eleitoral. Biden pareceu muito mais frágil e inseguro ontem do que Nixon em 1960.
Os democratas agora terão um dilema extremamente complexo: continuar com Biden e possivelmente perder a eleição presidencial (com o risco de perder também o controle do Senado americano) ou convencer o presidente a desistir da reeleição e buscar um novo candidato. A mídia americana falava ontem à noite sobre um estado de pânico entre os democratas.
Caso consigam convencer Biden a desistir, os democratas terão ainda outro dilema: o que fazer com a vice-presidente Kamala Harris, que seria a candidata natural, mas que não emplacou politicamente e que parece ter poucas chances de derrotar Trump. Por fim, por duas vezes o presidente no cargo desistiu em cima da hora de disputar a reeleição: os democratas Harry Truman, em 1952, e Lyndon Johnson, em 1968. Nessas duas vezes, o substituto perdeu a eleição.
As preocupações com a idade de Biden e com a sua capacidade de encarar uma campanha eleitoral duríssima e governar por mais quatro anos eram bomba-relógio. Essa bomba estourou no debate presidencial. A dinâmica das eleições americanas mudou completamente.
Fonte: Valor Econômico

