O Banco Central precisa aumentar os juros para manter sua credibilidade e as questões domésticas sob controle, mas o aperto monetário não vai afetar a bolsa. A afirmação foi feita hoje por André Raduan, sócio co-fundador e CIO da Genoa Capital, e Gustavo Salomão, sócio fundador e CIO da Norte Asset, durante painel na Conferência Anual do Santander.
“Cada país tem seu ciclo e nós temos um pouco diferente do americano”, disse Raduan. “A gente acredita em aumento de juros no Brasil não atrapalha a bolsa, pelo contrário, porque traz mais credibilidade e diminui os prêmios de risco.” Ele afirma que o crédito tem crescido muito acima do esperado por causa da mudança regulatória e cabe ao BC um pequeno ajuste na Selic, já que as contas do setor externo “vão ajudar.”
Raduan não vê uma recessão nos Estados Unidos, porque avalia que o Federal Reserve tem mecanismos para suavizar a desaceleração. Por isso, comenta, no geral o ambiente para mercados emergentes é positivo, embora cada país enfrente suas dificuldades. Enumera que no México as eleições americanas podem ter impacto, por isso a gestora está fora dos ativos do país. Para Chile e Austrália ele vê reaquecimento da economia, mas para Europa a perspectiva é pessimista.
“Nossa carteira ‘risk on’, não vai ter recessão nos EUA, mas a China é uma grande preocupação, porque estamos vendo mudanças significativas, com forte queda do investimento direto, esgotamento total do modelo de crescimento baseado em infraestrutura e mercado imobiliário.” Raduan comenta que o governo chinês está focando em exportação para reativar a economia mas outros países reagindo com aumentos de tarifas, o que pode dificultar o efeito das medidas.
Salomão, por sua vez, ressalta que o mercado brasileiro está muito a reboque do externo. Ele diz que nos últimos três meses, quando começou a ter perspectiva maior de corte dos juros americanos, tivemos fluxo positivo de investidores estrangeiros, depois de vários meses no negativo e, com isso, a bolsa tem se recuperado. “Estamos olhando muito o micro da empresas, que está melhor em diversos setores desde o fim do primeiro trimestre. Muitas fizeram o dever de casa e se reestruturaram.”
De acordo com o fundador da Norte Asset, apesar da agenda local de preocupações com políticas fiscal e monetária, na prática o que vai mover uma mudança grande é o mercado lá fora. “O grande risco é o pouso ser menos suave que o esperado nos Estados Unidos, mas não temos indicação disso.”
Ele lembra que o crescimento dos fundos quantitativos no mercado tem forte influência no preço, com o desmonte de posições automático, mas diz que a gestora se protege contra essa volatilidade com contratos de longo prazo que absorvem os movimentos. “Se mercado cair, é a maneira que encontramos de proteger nossa visão construtiva do mercado.”
Salomão apresenta números para provar que as ações brasileiras não estão caras, mesmo com o recorde do Ibovespa nesta semana. “Em junho de 2021, a bolsa bateu pela primeira vez os 130 mil pontos, naquele momento havia um recorde em aberturas de capital na bolsa, e o nível de valuation das empresas era diferente”, avalia. “De lá para cá o CDI andou 40%, o IPCA, 21% e a bolsa, 5%. Não está caro.”
Segundo ele, as empresas estão em situação muito melhor, ao mesmo tempo em que o Brasil está voltando para o radar dos estrangeiros. “A volta do fluxo do investidor local é questão de tempo, porque não vamos ter o gatilho do corte de juros, mas teremos desempenho e posição técnica favorável que vai atrair as alocações.” Salomão cita que o percentual de bolsa nas carteiras está na mínima histórica, em torno de 7% a 8%, o que aumenta a chance de incremento.
“Quem está pouco alocado em bolsa deve ir aumentando gradualmente. Já estive mais preocupado com risco de cauda e não tenho mais, porque temos que separar o que é barulho e o que é fundamento. Estou positivamente impressionado com a parte técnica do governo”, concluiu Salomão.
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Fonte: Valor Econômico


