/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/x/5/eBafi0TKmcm7JWyX2g7A/arte28fin-102-focus-c1.jpg)
O ciclo atual de flexibilização monetária se aproxima do fim e os próximos passos do Banco Central (BC) na condução dos juros parecem cada vez mais condicionados à dinâmica das expectativas inflacionárias. Nesse sentido, o protagonismo conferido ao Boletim Focus pela autoridade monetária deixa os participantes do mercado atentos à visão consensual dos economistas sobre o comportamento futuro da inflação, embora dúvidas sobre a capacidade de predição do documento para horizontes mais longos tenha suscitado críticas de alguns participantes do mercado.
A piora na inflação prospectiva vem se intensificando a cada semana. A mediana das estimativas dos economistas de mercado para o IPCA de 2025 subiu de 3,74% para 3,75%, enquanto o ponto-médio das projeções para a inflação de 2026 subiu de 3,50% para 3,58%, após ter ficado parada por 46 semanas. E é diante de um distanciamento ainda maior das expectativas em relação à meta de 3% que o mercado tem embarcado na sensação de que a autoridade monetária tende a pausar o ciclo de cortes na Selic.
O boletim divulgado ontem era aguardado com ansiedade. A sexta-feira foi uma “data crítica” para as projeções de inflação, ou seja, o último dia que os analistas tinham para calibrar suas estimativas para o IPCA para a formação dos rankings de “Top 5” de inflação do relatório elaborado pelo BC. Além disso, muitas casas não atualizam as estimativas semanalmente e demoram mais tempo para ajustar suas projeções, o que aumenta a importância da “data crítica”.
Nesse sentido, era ampla a expectativa de que houvesse uma elevação das projeções de inflação e alguma contaminação do movimento recente em horizontes mais longos, especialmente a partir de 2026 – o que efetivamente aconteceu.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2022/j/w/JPyiw7Q6myAKDBSBk0Qw/180611goldmansachs074.jpg)
“As expectativas de inflação de médio prazo provavelmente estão refletindo prêmios sobre a condução da política, ou seja, a expectativa de que as metas fiscais não serão cumpridas, com as autoridades fiscais e monetárias inclinadas a acomodar a inflação acima da meta”, afirma o chefe de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos.
Na visão do profissional, quanto mais tempo as expectativas de inflação de médio prazo (2026 e 2027) ficarem acima da meta, maior a contaminação nos mecanismos de formação de preços. E esse cenário, segundo Ramos, em nota enviada a clientes, “tornaria mais custoso para o Banco Central atingir a meta de inflação”.
A autoridade monetária, tanto na comunicação oficial quanto em discursos dos dirigentes, tem se mostrado cada vez mais preocupada com o processo de desancoragem das expectativas no Focus. Ontem, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, reafirmou a importância das expectativas, ao dizer que as projeções de mercado “tendem a acertar mais” do que as de quem está fora. Além disso, o dirigente ressaltou que, na decisão do início do mês do Comitê de Política Monetária (Copom), a piora na dinâmica das expectativas levou a maioria do colegiado a optar por um corte de 0,25 ponto na Selic.
De acordo com dados atualizados ontem pelo BC, 169 instituições financeiras, entre bancos, gestoras de recursos e consultorias, participam da pesquisa Focus neste momento. Na elaboração de suas políticas, a autoridade monetária em geral leva em consideração, em especial, o comportamento das medianas das projeções dos últimos 30 dias, já que elas costumam ter um caráter mais inercial e não são tão voláteis quanto a média ou a mediana das estimativas atualizadas nos últimos cinco dias úteis.
Além do Focus, o BC costuma observar o comportamento da inflação “implícita”, que é extraída dos títulos públicos atrelados ao IPCA (NTN-Bs), e que, por ser negociada no mercado, tende a ser mais volátil e está bem acima das metas, já que os participantes de mercado costumam exigir “prêmios” maiores. A inflação extraída da NTN-B para agosto de 2026 estava em 4,76% na sexta-feira.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/A/i/AU3RwyQV28MfKxHdhRMw/110822fabio047.jpg)
Na visão do diretor de macroeconomia da ASA Investments e ex-diretor do BC, Fabio Kanczuk, a discussão sobre o Focus é “a mais relevante” do momento e se divide, dentro do Copom, entre a narrativa do “G-5”, grupo do qual faz parte Campos Neto, e os quatro outros membros indicados pelo governo.
“O primeiro grupo dá atenção ao Focus e chama atenção para a desancoragem das expectativas, que recentemente voltaram a andar na direção contrária. A outra narrativa, da qual imaginamos que o Haddad [ministro da Fazenda] seja o principal proponente, entende que o Focus é manipulado pela Faria Lima e, assim, outros indicadores, que não estão sujeitos à opinião dos analistas, seriam mais relevantes. E, com isso, seria possível cortar mais os juros”, afirma.
“Eu já acreditava que as expectativas estavam desancoradas nos 3,5% e agora estão ainda mais. Eu não acho o Focus perfeito, há algumas inconsistências nele, mas a qualidade da variável inflação no Focus é muito melhor do que qualquer outra. No fim do dia, ele acaba sendo o melhor instrumento que temos em termos de previsão de inflação”, aponta Kanczuk.
Para o economista, o movimento recente de desancoragem é “grave” e deve ser combatido com uma postura ainda mais conservadora pelo BC. “Não dá para brincar com isso. A inflação longa precisa estar ancorada. Se não estiver, o custo para a sociedade será muito elevado. O próprio Federal Reserve [Fed, o banco central dos EUA] celebra o fato de, apesar da inflação corrente estar distante da meta, as expectativas longas estarem ancoradas. E é isso que permite uma flexibilidade maior do ponto de vista da condução da política monetária. É ali que está a credibilidade do Banco Central”, enfatiza.
Nesse sentido, para Kanczuk, caso o grupo de diretores não concorde em utilizar o Focus, também é possível monitorar a inflação “implícita” de mercado. “De março para cá, tudo acabou piorando muito. Então, se você não gosta do Focus, pode buscar outras medidas, que provavelmente vão te dar informações ainda mais preocupantes.”
Na visão do profissional da ASA, caso as expectativas parem perto dos 4%, como ele espera, o BC não deve promover novos cortes de juros neste ano. E, em um cenário no qual elas ultrapassem os 4% e caminhem para 4,5%, a discussão sobre novas elevações nos juros deve ganhar intensidade.
Fonte: Valor Econômico


