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A desinflação de serviços no Brasil dá sinais de que, se já não acabou, está bem perto disso, porque dificilmente poderá contar com fatores que vinham ajudando nesse processo até então. O problema, dizem economistas, é que essa inflação de serviços, acompanhada de perto pelo Banco Central, deve se estabilizar em um patamar ao redor de 5%, muito distante do centro da meta de 3% perseguida pela autoridade monetária.
A partir de um exercício do próprio BC em um Relatório de Inflação (RI), a MCM Consultores separou a inflação de serviços acumulada em 12 meses por quatro fatores determinantes: o hiato do produto (nível de ociosidade da economia); a inércia (quanto a inflação de hoje é influenciada pela de ontem); as expectativas para a inflação futura e o “resíduo” (aquilo imprevisível, como choques).
“A principal conclusão é que essa desinflação pode estar perto do limite”, diz Alexandre Teixeira, economista da MCM.
De janeiro a abril deste ano, a inflação de serviços tinha desacelerado um ponto percentual no acumulado em 12 meses, de 5,6% para 4,6%. Todos os fatores vinham jogando a favor, especialmente as expectativas e a inércia, segundo a MCM. Em maio, no entanto, a inflação de serviços voltou a acelerar para 5,1% em 12 meses.
A contribuição do hiato tem sido praticamente neutra há alguns trimestres. “Se ele não está zerado, está muito perto. Dá para ver isso também pelo mercado de trabalho, que está muito aquecido, o que pressiona salários e tende a contribuir para manter a inflação de serviços persistente”, diz Teixeira.
Além disso, as expectativas de inflação estão em processo de desancoragem adicional, o que implica que sua contribuição para a desinflação daqui para frente tende a ser progressivamente menor, segundo a MCM.
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“Por ora, vemos que as expectativas ainda têm ajudado na desaceleração da inflação de serviços, mas não sabemos até quando. Na pesquisa Focus, a expectativa para 2025 está cada vez mais desancorada”, diz Teixeira. A mediana das projeções coletadas pelo BC para a inflação do próximo ano saiu de 3,5% no início de 2024 para 3,85% nesta semana.
Sobra a inércia para continuar ajudando a desinflação de serviços, aponta Teixeira. Isso ainda pode acontecer, principalmente devido à importante desaceleração do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) total no último ano – de 5,8% ao fim de 2022 para 4,6% em 2023 -, mas também há dúvidas sobre a sua intensidade, segundo a MCM.
Para uma análise mais detalhada, o Santander divide a inflação de serviços entre aqueles ligados à inércia (aluguel e cursos, por exemplo), à atividade (serviços gerais como bancário, cabeleireiro, manicure, hospedagem), a salários (como empregado doméstico) e outros (alimentação fora do domicílio e passagem aérea).
Em maio, os serviços ligados à atividade e os inerciais desaceleraram ante abril, de 5,9% para 5,5% e de 6,1% para 5,4%, pela ordem, na média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada, uma forma de suavizar movimentos mensais, mas ainda captar a tendência “na ponta” de modo mais dinâmico do que em 12 meses.
“Essas aberturas subiram bastante uns quatro meses atrás, principalmente em fevereiro e, agora em maio, começaram a desacelerar”, diz Adriano Valladão, economista do Santander. Os serviços ligados a salários, por outro lado, aceleraram de 5,9% em abril para 6,3% em maio, na média móvel.
A MCM também decompõe, a partir de metodologia do BC, a inflação de serviços em itens sensíveis à ociosidade – como estacionamento, mudança e conserto de veículo – e aqueles mais sensíveis à inércia – condomínio, transporte escolar e cursos, por exemplo.
A inflação acumulada em 12 meses dos serviços sensíveis à ociosidade vinha desacelerando de janeiro a abril deste ano, de 5,18% para 4,38%. Em maio, no entanto, ficou praticamente estagnada, em 4,37%. Já a inflação dos serviços sensíveis à inércia até acelerou ligeiramente, de 4,92% em abril para 4,94% em maio.
Na média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada, até abril, os indicadores mostravam oscilação ao redor de 4% no caso dos serviços sensíveis à ociosidade e ao redor de 5% entre os sensíveis à inércia. Em maio, porém, a inflação de serviços sensíveis à ociosidade acelerou para 4,3% e a dos itens sensíveis à inércia não cedeu de 5,1%, pela mesma média móvel.
“Ainda não dá para considerar que o dado de maio é formador de tendência, mas dá para afirmar com mais segurança que os fatores que contribuíram para a desaceleração da inflação de serviços desde o pico observado em 2022 vêm perdendo força”, diz Teixeira.
Tanto que, ao considerar sua projeção para cada item do IPCA, a expectativa da MCM é que a inflação de serviços sensíveis à ociosidade chegue a 4,4% no acumulado em 12 meses até dezembro de 2024 (ou 5,2% na média móvel trimestral), enquanto a inflação dos serviços sensíveis à inércia iria para 5% em 12 meses (ou 5,4% na média móvel).
“A inflação de serviços está com um ‘jeitão’ de parar de cair, se estabilizar e até, provavelmente, voltar a subir um pouco até o fim do ano. O que pode levar à conclusão de que estamos próximos do fim desse processo de desinflação de serviços em um patamar muito distante da meta”, afirma Teixeira.
Valladão, do Santander, diz ver uma inflação de serviços inerciais “andando de lado” até o fim do ano, podendo desacelerar levemente de 5,17% nos 12 meses até maio para 5,10% em dezembro.
“Para a inflação de serviços ligados à atividade temos uma projeção mais clara de desaceleração, de 4,28% em 12 meses até maio para 3,69% no fim do ano”, diz. Algo similar vale para a inflação dos serviços ligados a salários, que deve ir de 5,76% para 5,10%, estima.
Todos os exercícios sugerem, segundo Teixeira, que o BC tem razão em ser mais cauteloso. Na semana passada, o seu Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu o ciclo de cortes de juros iniciado no ano passado.
“A desaceleração da inflação geral vinha sendo beneficiada pela desaceleração em alimentação e nos bens industriais. Até onde poderemos contar com preços de alimentos confortáveis e industriais arrefecendo? Quais serão os vetores daqui para frente? Porque o único grupo que o BC controla, que é o de serviços subjacentes, está rodando com alta de 4,8% em 12 meses”, diz Marcela Rocha, economista-chefe da Principal Claritas.
A inflação de serviços é um “termômetro”, segundo Rocha, para avaliar os impactos da atividade nos preços e também para as expectativas gerais de inflação.
Em um exercício em que investigam a relação entre as expectativas para inflação mensal e em 12 meses, Valladão e Henrique Danyi, também economista do Santander, concluem que leva de um mês e meio a três meses para essas métricas convergirem. Além disso, eles apontam que a inflação acumulada em 12 meses, provavelmente, desacelerará à frente, mas reconhecem que a recente depreciação do real, por exemplo, é um fator de risco altista.
“A inflação corrente de serviços alta incomoda e, no horizonte relevante da política monetária [2025, atualmente], a desancoragem das expectativas incomoda ainda mais. Mas, com a inflação de serviços parando de cair em 12 meses e se estabilizando em um patamar bem mais alto do que a meta, isso também tende a ser um fator de preocupação para o BC”, diz Teixeira.
Fonte: Valor Econômico


