Os resultados diferentes das análises coordenadas foram divulgados na manhã do dia 14 de julho. Um deles veio da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC, na sigla em inglês), um braço especializado da OMS. O outro relatório foi produzido por um comitê de especialistas selecionados pela OMS e por outro grupo da ONU, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO.
A agência com sede em Lyon, na França, periodicamente avalia os riscos potenciais de câncer, mas não determina a probabilidade de que causem câncer em suas avaliações, que vão de “possivelmente” carcinogênico a “provavelmente” causador de câncer.
O aspartame se integra a uma categoria com mais de 300 outros possíveis agentes causadores de câncer, que incluem extrato de aloe vera, vegetais em conserva de estilo asiático, e trabalho de carpintaria.
As orientações sobre o uso do adoçante, porém, não mudam. “Não estamos aconselhando as pessoas a deixaram de consumir [aspartame] completamente”, diz o diretor de nutrição da OMS, Francesco Branca. “Estamos apenas aconselhando um pouco de moderação.”
O que é aspartame?
Aspartame é um adoçante artificial de baixa caloria que é aproximadamente 200 vezes mais doce que o açúcar. É um pó branco e inodoro, e o adoçante artificial mais usado no mundo.
O aspartame é um aditivo alimentar autorizado na Europa e nos Estados Unidos, e é usado em inúmeros alimentos, bebidas como Coca Zero, sobremesas, gomas de mascar, medicamentos como pastilhas para a tosse, e suplementos destinados a auxiliar na perda de peso. Está em vários adoçantes de mesa vendidos com nomes comerciais.
O aspartame foi aprovado em 1974 pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA, na sigla em inglês) com uma ingestão diária aceitável de 50 mg por quilograma de peso corporal. Segundo a FDA, alguém com peso de 60 kg precisaria consumir 75 sachês de aspartame para atingir esse nível.
Limite diário
Especialistas da ONU avaliaram a segurança do aspartame em 1981 e estabeleceram um limite diário um pouco mais baixo, de 40 mg de aspartame por quilo.
David Spiegelhalter, professor emérito de estatística da Universidade de Cambridge, diz que essa orientação significa que “pessoas comuns podem beber com segurança até 14 latas de bebidas diet por dia (…) e mesmo esse ‘limite diário aceitável’ inclui uma grande margem de segurança”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/X/K/oETJyHSxmTcrY4kMkL8A/latas-de-refrigerante-james-yarema-unsplash.jpg)
Latas de refrigerante — Foto: James Yarema/Unsplash
O que disseram os dois grupos?
A IARC, agência de pesquisa em câncer da OMS, reuniu seu grupo de especialistas em junho para avaliar o potencial cancerígeno do aspartame. O grupo fundamentou sua conclusão de que o aspartame é “possivelmente cancerígeno” em estudos feitos em seres humanos e animais, que encontraram evidências “limitadas” de que o composto pode estar associado ao câncer de fígado.
Em uma avaliação separada, os especialistas reunidos pela OMS e pela agência alimentar atualizaram sua avaliação de risco, incluindo a análise do limite diário de ingestão. Eles concluíram que não havia “evidências convincentes” de que o aspartame era perigoso nos níveis atuais de consumo; as orientações sobre os níveis aceitáveis de consumo não foram alteradas.
A medida se deu semanas depois de a OMS declarar que os adoçantes sem açúcar não ajudam na perda de peso e podem levar a um risco aumentado de diabetes, doenças cardíacas e morte precoce em adultos.
Devo me preocupar por ingerir muito?
Não, desde que você não exceda as orientações. A FDA diz que as evidência científicas continuam a corroborar a conclusão da agência de que o aspartame é “seguro para o público em geral”, quando usado dentro dos limites.
Praticamente qualquer substância pode ser perigosa em quantidades excessivas, diz David Klurfeld, especialista em nutrição da Escola de Saúde Pública da Universidade de Indiana em Bloomington.
“A dose faz o veneno”, diz Klurfeld, que já participou anteriormente de um comitê da IARC. “Mesmo nutrientes essenciais como vitamina A, ferro e água podem matar alguém em questão de horas se forem consumidos em excesso.”
O que os consumidores devem fazer?
Branca, da OMS, diz que é aceitável que as pessoas consumam quantidades “bastante grandes” de aspartame sem sofrerem efeitos adversos. “Grandes consumidores” talvez devam reduzir, recomenda.
Peter Lurie, diretor-executivo do Centro para Ciência de Interesse Público, que anteriormente indicou o aspartame para avaliação da IARC, disse que há uma escolha simples. “Pelo menos no que diz respeito às bebidas, nosso recado é que a sua melhor opção é beber água ou bebidas não adoçadas”, explica.
A maioria das pessoas, porém, provavelmente não presta muita atenção às avaliações da IARC. A agência já classificou anteriormente como cancerígenas as carnes processadas, como salsichas e bacon, destacando em especial sua ligação com o câncer de cólon. A medida surpreendeu até mesmo outras pessoas da comunidade científica — a maior instituição de caridade ligada ao câncer no Reino Unido tranquilizou os britânicos de que um sanduíche de bacon de vez em quando não faria tão mal.
O que isso significa para a indústria de alimentos e bebidas?
Produtores de alimentos e bebidas dizem que não há motivo para evitar produtos com aspartame. “Há um amplo consenso na comunidade científica e regulatória de que o aspartame é seguro”, disse a Associação Americana de Bebidas em um comunicado.
Branca, da OMS, diz que a agência aconselha os fabricantes de alimentos em geral a “usarem ingredientes que não exijam a adição de muito açúcar”. Após as recentes análises do aspartame, ele considera que usar adoçantes “provavelmente não é o caminho a seguir”.
Fonte: Valor Econômico


