É difícil recordar um momento em que os mercados globais estivessem tão obcecados por uma única narrativa. O “boom” da inteligência artificial (IA) é agora tão poderoso e abrangente que está sobrepujando todos os outros motores de retorno e moldando uma nova ordem mundial baseada na IA.
O desempenho relativo das principais bolsas de valores do mundo no último ano pode ser explicado pelo grau de exposição que possuem à IA. Nações com forte presença na cadeia de indústrias que desenvolvem infraestrutura e serviços de IA estão apresentando desempenho muito superior, enquanto aquelas sem essa presença estão ficando para trás por margens recordes. Entre os vencedores estão os EUA e a China, graças sobretudo aos seus modelos fundamentais de IA; Taiwan e Coreia do Sul, pela força de seus fabricantes de chips; e Japão e Israel, devido a uma ampla gama de competências em IA.
Os vencedores parciais são os fornecedores secundários. Eles incluem nações que exportam circuitos, servidores e outros equipamentos eletrônicos relacionados à IA – como México, Tailândia e Vietnã – ou que desempenham um papel nessa cadeia tanto como exportadoras quanto como bases importantes para centros de dados, a exemplo de Malásia e Cingapura.
Entre os perdedores está grande parte da Europa, com raras exceções (os Países Baixos são um grande fornecedor de chips avançados, graças a uma única grande empresa). Em pior situação estão os países que carecem de empresas ligadas à IA e dependem fortemente de setores mais expostos a rupturas, incluindo o de serviços de TI.
Nos EUA, as empresas ligadas à IA representam mais de 40% da capitalização de mercado e foram responsáveis por mais de 80% dos retornos deste ano. O perfil de retorno e concentração é semelhante no Japão e ainda mais extremo na Coreia do Sul e em Taiwan. Na China, toda a movimentação ocorre em segmentos de mercado mais novos e voltados para o crescimento, enquanto os setores da “velha economia” enfrentam dificuldades. Paralelamente, países como Índia e Filipinas – vistos como os mais vulneráveis ao impacto disruptivo da IA – acumulam perdas significativas neste ano.
Embora a euforia com a internet no final da década de 1990 também tenha sido um fenômeno global avassalador, ela não apresentava um foco tão restrito. Naquela época, os principais subsetores de tecnologia eram equipamentos de comunicação, semicondutores e serviços de telecomunicações sem fio, responsáveis por 60% dos ganhos do mercado global no auge da bolha das pontocom, no início de 2000. Até agora, neste ano, os três principais subsetores de tecnologia (semicondutores, hardware e equipamentos eletrônicos) contribuíram com uma parcela significativamente maior dos ganhos do mercado global: mais de 70%.
Além disso, ao contrário do auge das pontocom – quando os retornos impulsionados pela tecnologia se espalhavam por diversos setores e mercados -, hoje o capital está sendo drenado de setores e nações que não estão ligados à IA. Mesmo nos EUA, o investimento fora do setor de tecnologia está diminuindo em termos reais. Paralelamente, investidores estrangeiros continuam retirando recursos de países vistos como periféricos ao “boom” da IA, desde o Reino Unido até a Indonésia.
Os investidores globais podem estar focados quase exclusivamente na IA, mas não estão escolhendo os vencedores ao acaso. As nações líderes em IA são potências tecnológicas consolidadas, com um forte compromisso com pesquisa e desenvolvimento (P&D) e gastos médios superiores a 3% do PIB – mais do que o triplo do nível registrado por países que estão ficando para trás. Elas também investem pesadamente em tecnologia: os gastos no setor representam, em média, 3,7% do PIB entre os vencedores na área de IA, em comparação com 2,7% entre os vencedores parciais e 1,6% entre os que estão perdendo terreno.
Vale ressaltar, no entanto, que a posição de nenhum líder está garantida. Nos EUA, o desempenho das ações das “Sete Magníficas” tem divergido cada vez mais: três apresentam alta, três estão em queda e uma permanece estável no ano, ao mesmo tempo em que todas enfrentam algum tipo de concorrência estrangeira, frequentemente vinda da China.
Na China, gigantes como Alibaba e Tencent ainda tentam descobrir como lucrar com a IA e acumulam queda de cerca de 30% neste ano. O verdadeiro impulso da IA na China vem de empresas de tecnologia mais recentes – muitas vezes listadas em mercados secundários mais conhecidos por investidores locais do que pelos estrangeiros, como a ChiNext, que registra alta de 35% no ano.
No Japão, a liderança do mercado deslocou-se fortemente para a tecnologia no último ano: o setor de semicondutores subiu 200%, e a Kioxia, pioneira em memórias de computador, valorizou-se 3.500%, tornando-se a ação de maior valor do país. O efeito impulsionador da IA continua a sustentar muitas economias em meio a uma sucessão de crises, desde a guerra tarifária até o choque do petróleo envolvendo o Irã.
As expectativas de crescimento do PIB para os países que mais se beneficiam da IA subiram quase um ponto percentual completo desde o início do ano, enquanto caíram significativamente para aqueles que não acompanham esse avanço. Em nações como EUA, Taiwan e Coreia, os ganhos expressivos na manufatura avançada, o consequente aumento dos lucros e o efeito-riqueza gerado pela valorização das bolsas de valores impulsionada pela IA continuam a estimular o crescimento econômico. Em países como China, Tailândia e México, as exportações de tecnologia crescem a um ritmo suficiente para compensar a fraqueza em outros setores, incluindo a demanda interna.
Em suma, vivemos em um mundo impulsionado pela IA. Naturalmente, essa obsessão não durará para sempre. O entusiasmo especulativo diminuirá à medida que a revolução tecnológica persiste e amplia seu alcance. Assim como ocorreu após o “boom” das ferrovias no século XIX e a febre da internet na virada deste século, um mercado global mais equilibrado acabará por reemergir. No entanto, enquanto os investidores continuarem a ver a IA como o único alicerce da próxima ordem mundial, eles continuarão a classificar as nações com base em sua proeza tecnológica.
Ruchir Sharma é presidente do conselho da Rockefeller International. Seu livro mais recente é “O que deu errado com o Capitalismo”
Fonte: Valor Econômico


