Os tempos estão bons na Eli Lilly. O apetite insaciável de Wall Street por ações de empresas de medicamentos para perda de peso está prestes a transformar a Eli Lily na primeira fabricante de medicamentos do mundo a valer US$ 1 trilhão (R$ 5,44 trilhões) em valor de mercado.
Mas histórias de tempos mais sombrios nunca estão longe quando se dirige uma empresa farmacêutica. No final dos anos 2000, o preço das ações da Eli Lilly se aproximava de mínimos históricos à medida que as patentes de seus medicamentos psiquiátricos de sucesso —principalmente Prozac, Zyprexa e Cymbalta— expiravam.


A consolidação estava varrendo a indústria na época, lembra o CEO Dave Ricks, e a Eli Lilly corria o risco de se tornar “parte de outra empresa”. A roda da fortuna girou desde então. O principal problema da empresa agora é construir linhas de produção rápido o suficiente para atender à demanda por medicamentos de sucesso para diabetes e perda de peso, Mounjaro e Zepbound, parte de uma nova classe de medicamentos conhecidos como GLP-1.
A Eli investiu US$ 20 bilhões (R$ 108,8 bilhões) em instalações de fabricação nos últimos quatro anos e, na quarta-feira (2), anunciou que estava gastando mais US$ 4,5 bilhões (R$ 24,48 bilhões) na construção de uma instalação de produção para medicamentos em ensaios clínicos em seu estado de origem, Indiana. O grupo de possíveis pacientes é um dos maiores da história de qualquer medicamento: existem mais de 100 milhões de adultos nos EUA com obesidade e 1 bilhão de pessoas no planeta.
Com a injeção de perda de peso mais potente e uma linha de 11 tratamentos experimentais, incluindo o que é amplamente esperado como a primeira pílula GLP-1 aprovada, a Eli Lilly está prestes a ser a maior vencedora em um mercado que deve crescer para US$ 130 bilhões (R$ 707,2 bilhões) por ano em vendas máximas até o final da década.
O CEO passa grande parte de seu tempo trabalhando para aumentar a capacidade de fabricação para superar a rival Novo Nordisk. Enquanto isso, a Eli Lilly está lutando contra a concorrência de medicamentos para perda de peso genéricos e outros desenvolvedores de medicamentos que entram nesse campo lucrativo, além de enfrentar uma pressão crescente de políticos e pacientes sobre o preço de seus tratamentos.
Os investidores também estão se tornando cautelosos com a avaliação elevada da empresa, com um valor de US$ 842 bilhões (R$ 4,58 trilhões) no final de setembro —ou 54 vezes maior do que os lucros projetados para os próximos 12 meses, uma altura nunca antes alcançada na indústria.
A empresa espera consolidar sua posição entre as dez empresas mais valiosas dos EUA, à frente da concorrência. Para a Eli Lilly, isso significa direcionar as receitas extraordinárias para pesquisa e desenvolvimento, a fim de se preparar para quando seus medicamentos para perda de peso chegarem à quebra de patente —em algum momento em meados da década de 2030.
As ações de tecnologia que competem pelo título de empresa mais valiosa — como Microsoft, Apple, Nvidia e Google — compartilham uma “aderência com seus clientes… que a indústria farmacêutica no passado não tinha”, afirma Daniel Skovronsky, diretor científico da Eli Lilly.
A missão de longo prazo da empresa não é apenas alcançar maiores alturas, mas evitar um retorno aos tempos sombrios cultivando um pouco dessa lealdade do consumidor. “Nossa missão é sair desse ciclo de boom e queda da indústria farmacêutica”, acrescenta Skovronsky.
Perspectivas futuras
Se orforglipron for lançado conforme programado em 2026, a Eli Lilly vai desfrutar de um monopólio de dois anos no mercado de pílulas para perda de peso antes que os rivais a alcancem. Ao mesmo tempo, a empresa também está desenvolvendo o retatrutida, um tratamento que ativa três diferentes peptídeos intestinais e, em ensaios de estágio intermediário, resultou em uma redução de 24% na massa corporal, muito mais dramática do que os efeitos de qualquer tratamento existente.
A empresa também está correndo para provar os benefícios adicionais da tirzepatida para os efeitos colaterais da obesidade, como apneia do sono, risco cardiovascular e doença renal crônica, ajudando a facilitar o caminho para uma cobertura de seguro mais ampla. O Medicare, o programa de saúde apoiado pelo governo americano, principalmente para maiores de 65 anos, só cobre medicamentos para perda de peso quando um paciente está sofrendo de outra comorbidade.
“Vamos dar um passo de cada vez… provando as indicações não apenas para reduzir o peso, mas para as consequências disso”, diz Ricks. “Acho que em cinco anos olharemos para trás e diremos que a maioria dessas doenças pode ser melhorada mudando seu peso… e os pagadores olharão para trás e dirão: ‘Sim, deveríamos cobrir [tirzepatida] em todas essas condições e na condição anterior, que é a obesidade médica.'”
Além de seu antigo rival, a Eli Lilly também enfrenta a concorrência de outros setores. Cerca de 16 novos medicamentos para obesidade podem ser lançados até o final da década, incluindo de fabricantes de medicamentos como AstraZeneca, Pfizer e Amgen, de acordo com a PitchBook.


Com concorrentes à espreita da Eli Lilly e sua principal vantagem sendo corroída, os investidores veem sinais de alerta de que a valorização da empresa pode estar se aproximando do pico.
Um dos 25 maiores acionistas prevê que a Eli Lilly ultrapassará a marca de US$ 1 trilhão (R$ 5,44 milhões), mas diz que isso está “próximo do topo”. “Há o inevitável declínio de patentes, há concorrência e, em breve, haverá uma guerra de preços”, diz o investidor. “Parece que este é o pico do entusiasmo da [Eli Lilly].”
Se a Eli Lilly realmente quer escapar do ciclo de altos e baixos da indústria farmacêutica, sua equipe de pesquisa e desenvolvimento terá que trabalhar para descobrir o próximo medicamento revolucionário. A tarefa para a Eli Lilly é determinar “qual é a sua próxima grande inovação”, diz um investidor.
A empresa espera que essas oportunidades possam estar escondidas nos dados do mundo real provenientes do lançamento de seus medicamentos anti-obesidade.
Os primeiros sinais sugerem que as centenas de milhares de pacientes prescritos com tirzepatida estão começando a ver outros efeitos surpreendentes do tratamento: uma redução nos sintomas de ansiedade e depressão, bem como um melhor controle sobre comportamentos compulsivos como fumar e beber, de acordo com Skovronsky.
A Eli Lilly já iniciou tratamentos contra doenças autoimunes, como artrite psoriática, em combinação com outros medicamentos, mas Skovronsky diz que os efeitos na saúde mental e no vício “são intrigantes o suficiente para que estejamos considerando… como abordar a questão de se esses medicamentos podem ajudar esses tipos de doenças”.
Enquanto isso, a Eli Lilly terá espaço para buscar sua próxima grande inovação: agora que o Kisunla, seu tratamento para pessoas com Alzheimer em estágio inicial, foi aprovado nos EUA, está inserindo o medicamento como tratamento preventivo para o distúrbio cerebral incurável.
Skovronsky acrescenta que a Eli Lilly, cujo maior medicamento anterior era o tratamento para depressão Prozac, provavelmente voltará à psiquiatria. Analgésicos não opióides também são uma área de potencial crescimento, já que os EUA continuam a buscar soluções para a crise dos opióides.
Para a Eli Lilly, o desafio será provar aos investidores que o resto de seus negócios pode ser tão atraente quanto seus medicamentos GLP-1 de sucesso. “Se você remover os negócios de diabetes e obesidade, eles não executam tão bem”, diz um investidor. “Há algum risco em entrar em novas áreas, porque assim como a Novo, eles são realmente bons em uma coisa… o resto é uma mistura.”
Fonte: Folha de São Paulo