Colunistas convidados escrevem para a editoria de Opinião do GLOBO. Informações da coluna Artigos Artigos escritos por colunistas convidados especialmente para O GLOBO. A conta da saúde não fecha É hora de encarar reformas, com foco na eficiência assistencial, reorganização da rede prestadora e uso racional de recursos RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/08/2025 – 19:20 Crise financeira ameaça saúde suplementar no Brasil: reformas urgentes são necessárias A saúde suplementar no Brasil enfrenta uma crise financeira insustentável, impulsionada pelo envelhecimento populacional e estagnação econômica. Custos médicos superam a inflação e planos de saúde operam com margens mínimas. Reformas são urgentes, focando na eficiência assistencial e reorganização da rede. Experiências internacionais sugerem modelos de atenção primária para conter custos e melhorar a sustentabilidade. A forma como consumimos saúde no Brasil tornou-se financeiramente insustentável. A escalada dos custos, o envelhecimento populacional e a estagnação econômica pressionam todo o ecossistema da saúde suplementar, evidenciando a urgência de uma transição no modelo assistencial. O custo médico-hospitalar cresce 14,6% ao ano — ritmo que supera com folga o IPCA (5,23%) e a expansão dos lucros líquidos das empresas do Ibovespa (cerca de 10% ao ano, entre 2012 e 2024). À medida que a população envelhece, a pressão sobre os planos de saúde se intensifica. Projeções do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar apontam que a maior participação de idosos nas carteiras elevará substancialmente os custos do setor na próxima década. Ao mesmo tempo, o ambiente macroeconômico impõe barreiras adicionais. A renda real dos brasileiros está estagnada há dez anos, e o setor empresarial, que financia 70% da saúde suplementar, registra números que preocupam. Segundo a Serasa Experian, 2024 terminou com recorde de pedidos de recuperação judicial e cerca de 30% das empresas inadimplentes. No ambiente microeconômico, a conta não fecha. Em 2024, as operadoras exclusivamente de planos de saúde faturaram R$ 330 bilhões, mas operaram com margem líquida de apenas 1,3%. Para preservar o caixa, práticas como glosas (faturamentos não recebidos ou recusados) e postergação dos repasses a hospitais e laboratórios aumentaram. A taxa média de glosas saltou de 3% para 16% da receita, segundo a Associação Nacional de Hospitais Privados, enquanto o prazo médio de pagamento às instituições de saúde saiu de 70 para 120 dias, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar. A retenção de capital asfixia os prestadores. Hospitais e laboratórios são obrigados a buscar financiamento externo para sustentar a operação. De 2022 a 2024, as empresas de saúde com capital aberto captaram R$ 16,5 bilhões, 40% dos quais via endividamento a custo médio de 15% ao ano. Essas instituições se endividaram para financiar o capital de giro das operadoras, num movimento inverso à lógica natural do setor. Se as grandes empresas enfrentam dificuldades, o cenário para os médios e pequenos é mais crítico. O setor deve assistir a consolidação acelerada, por meio de fusões ou encerramento de atividades. Diversas estratégias vêm sendo testadas. A verticalização, que ganhou força com grupos como Hapvida e Intermédica, a ampliação dos modelos de coparticipação (presentes em mais de 50% dos planos) e pacotes de remuneração por procedimento são avanços importantes, mas insuficientes para enfrentar o problema. Experiências internacionais mostram que a adoção de modelos baseados em atenção primária — com atuação preventiva, gestão de casos crônicos e uso racional de recursos — é decisiva para conter custos. Em países como Inglaterra e Portugal, o sistema de gatekeeping (consulta com generalista antes de encaminhar o paciente ao especialista) está consolidado, proporcionando desfechos mais eficientes e sustentáveis. Outro ponto crítico é a baixa oferta de leitos de cuidados prolongados, como hospitais paliativos, de transição, de reabilitação e atenção domiciliar. Recursos mais apropriados e menos onerosos, para o tratamento de pacientes crônicos e idosos, poderiam ser empregados em parte das internações de alta complexidade — embora elas representem apenas 0,5% dos eventos assistenciais, respondem por 42% dos custos do setor. No Brasil, há apenas 0,01 leito de transição para cada leito hospitalar, e a média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 2,5. O envelhecimento populacional é incontornável, e a manutenção do statu quo não é uma opção. É hora de encarar reformas, com foco na eficiência assistencial, reorganização da rede prestadora e uso racional de recursos. A saúde privada no Brasil é um ativo estratégico para o bem-estar e a produtividade da população. Sem reestruturar o modelo assistencial, corremos o risco de colapso. *Carlos Ceppas Lynch, diretor do Grupo Valsa, é economista e mestre em finanças pela University of Rochester
Fonte: O Globo